Ensinando estudantes de medicina a aprenderem com eficácia na era da IA.

04 de junho de 2026

Referência

Rebekah Cole (11 May 2026): Teaching medical students to learn effectively in the age of AI, Medical Teacher, DOI: 10.1080/0142159X.2026.2670569

O uso da Inteligência Artificial – IA – na formação médica não é mais uma opção, mas uma realidade.

Em paralelo a suas inúmeras potencialidades, surgem preocupações legítimas sobre os impactos negativos do seu uso, com perda de habilidades fundamentais, como a capacidade de leitura crítica, síntese, elaboração de raciocínio e até mesmo na escrita.

O artigo publicado recentemente na Medical Teacher, traz uma contribuição interessante ao propor que a IA não seja vista apenas como uma ferramenta de apoio e lateral, mas como um recurso integrado ao próprio processo de aprendizagem.

A autora propõe um modelo onde, ao identificar a metacognição como fundamental, a IA pode operacionalizar processos cognitivos a partir da compreensão da “ciência da educação”, utilizando alguns de seus princípios como a prática de recuperação, repetição programada, interação de conteúdos e elaboração.

Nesse modelo, antes mesmo de iniciar o uso da IA, os alunos são convidados a exercitar algumas tarefas para ativar seu conhecimento prévio e possíveis lacunas. Somente depois desta etapa passam a interagir com a ferramenta para desafiar seu próprio raciocínio, evitando o consumo passivo.

A metacognição ocupa um papel central, a partir da reflexão dos erros cometidos e planejando novas revisões direcionadas às necessidades individuais de aprendizagem.

A grande contribuição do modelo é estabelecer uma distinção crítica entre o uso passivo e o uso produtivo da IA evitando o consumo de sínteses terceirizadas e uma falsa sensação de proficiência no tema em questão.

A ideia é garantir que a ferramenta funcione como um catalizador de competências cognitivas e que os alunos a utilizem em processos que exigem certo esforço, reflexão e gerenciamento da auto aprendizagem.

As interações passam a ser mais ativas, com solicitações que geram novas perguntas, criação de casos clínicos mais complexos, identificação de suas próprias lacunas em seu raciocínio, além de planejar revisões direcionadas a dificuldades individuais específicas.

Certamente a nova proposta vai trazer também desafios, exigindo tanto alunos como docentes mais ativos, em especial no planejamento de atividades interativas, espaços para feedbacks estruturados e estratégias que favoreçam a elaboração e o raciocínio complexo.

No fundo, a discussão não é sobre usar ou não usar IA.

Talvez o maior desafio da educação médica contemporânea seja justamente evitar a terceirização cognitiva, sem abrir mão das oportunidades que a tecnologia oferece.

A ideia é garantir que a IA amplifique o pensamento crítico dos estudantes, evitando atalhos que eliminam a necessidade de pensar.

E isso pode ser libertador!